A indústria brasileira de dispositivos médicos vem ampliando investimentos em inovação, digitalização e internacionalização, consolidando um perfil cada vez mais tecnológico e estratégico para o sistema de saúde brasileiro. Ao mesmo tempo, o setor ainda enfrenta desafios estruturais ligados a financiamento, ambiente regulatório e competitividade global. É o que mostra um levantamento realizado pela ABIMO (Associação Brasileira da Indústria de Dispositivos Médicos) com empresas associadas do setor.
Os dados revelam uma indústria fortemente nacionalizada e com presença relevante na cadeia da saúde brasileira. Das empresas participantes, 32 possuem capital nacional e 22 atendem o SUS. Além disso, 16 afirmam possuir mais de 75% de nacionalização dos insumos e componentes utilizados na produção.
O cenário também mostra um setor fortemente voltado à inovação. Entre as empresas ouvidas, 31 afirmam realizar atividades internas de Pesquisa & Desenvolvimento (P&D), enquanto mais da metade destina acima de 5% do faturamento para inovação.
A incorporação de novas tecnologias aparece como um dos principais movimentos da indústria. Inteligência Artificial foi apontada como a tecnologia emergente de maior interesse das empresas, seguida por Internet das Coisas (IoT), impressão 3D, robótica médica e biotecnologia aplicada.
O levantamento também mostra que a maior parte das empresas já opera com níveis intermediários ou atualizados de tecnologia produtiva, enquanto 28 apontam Pesquisa & Desenvolvimento como prioridade de investimento para os próximos anos.
Apesar do avanço tecnológico, o ambiente de negócios ainda representa um dos principais obstáculos para expansão da indústria nacional. O financiamento adequado foi apontado como a principal dificuldade do setor, seguido pela concorrência desigual com produtos importados, falta de previsibilidade de mercado e dificuldade de acesso a talentos qualificados.
Entre os principais entraves para obtenção de crédito aparecem juros elevados, exigência de garantias e burocracia excessiva. O capital próprio segue como a principal fonte de financiamento utilizada pelas empresas.
A pesquisa também evidencia uma percepção crítica em relação ao ambiente regulatório. Custos elevados, regulação complexa e dificuldade de acesso a financiamento aparecem entre as principais barreiras à inovação no setor.
Nos comentários qualitativos do levantamento, empresas relatam preocupação crescente com a competitividade da indústria nacional frente aos produtos importados, especialmente asiáticos, além de alertarem para riscos de desindustrialização e dependência externa em saúde.
Para a ABIMO, o cenário mostra que a indústria brasileira já possui capacidade tecnológica, produtiva e inovadora, mas demanda um ambiente mais favorável para ampliar competitividade e acelerar investimentos.
“Os dados mostram que a indústria brasileira de dispositivos médicos já possui uma base relevante de inovação, digitalização e capacidade tecnológica. Hoje, o principal desafio não é a ausência de competência industrial, mas sim a necessidade de um ambiente mais favorável para que essas empresas consigam ampliar investimentos, ganhar competitividade e acelerar sua capacidade de inovação. Fortalecer a indústria nacional da saúde também significa discutir desenvolvimento tecnológico, ambiente de negócios e soberania sanitária”, afirma Jamir Dagir Jr., presidente da ABIMO.
Uma análise estratégica conduzida pela entidade concluiu ainda que a base já consolidada oferece conteúdo suficiente para aprofundar discussões sobre inovação, saúde digital, ambiente regulatório e competitividade da indústria brasileira de dispositivos médicos, sem necessidade de uma nova coleta ampla de dados neste momento.
Fonte: Medicina S/A.
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