Pesquisas de doutorado da Ufam conquistam Menção Honrosa em Prêmio Capes de Teses 2026

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Duas pesquisas de doutorado produzidas na Universidade Federal do Amazonas (Ufam) conquistaram Menção Honrosa no Prêmio Capes de Tese – Edição 2026, outorgado pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes). Conhecido como “Oscar da ciência Brasileira”, o prêmio considera a originalidade dos trabalhos e a relevância para o conhecimento científico, tecnológico, econômico, social e de inovação, entre outros requisitos.

resultado preliminar da premiação reconheceu, com menção honrosa, a pesquisa “Refatoração Antropológica: proposições para repensar diversidade de gênero e raça em sistemas de Inteligência Artificial”, de Mayane Batista, na área de avaliação de Antropologia/Arqueologia; e a pesquisa “A liturgia da cidade: espaços e tempos de um calendário litúrgico de Manaus”, de Diego Oliveira Montenegro, na área de avaliação de Geografia.

A pesquisa de Mayane Batista foi produzida no Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social (PPGAS) da Ufam e teve como orientador o docente da Ufam Thiago Mota Cardoso e como coorientador o professor Stelio Alessandro Marras, da Universidade de São Paulo (USP). Já a tese de Diego Montenegro foi defendida no Programa de Pós-Graduação em Geociências (PPGGEO) sob orientação da professora da Ufam Amélia Regina Batista Nogueira.

Ter sua tese agraciada pela menção honrosa foi uma surpresa para Mayane Batista. Ela destaca a trajetória coletiva da construção da pesquisa. “O reconhecimento alcança não apenas o resultado final, mas também todas as relações que permitiram que essa pesquisa fosse construída. E talvez a possibilidade de fazer com que uma discussão que nasceu em uma tese de Antropologia alcance outros espaços. Espero que esse reconhecimento contribua para ampliar o debate sobre diversidade, raça, gênero e tecnologia na área da Ciência da computação, área que estou me graduando”, afirmou a pesquisadora.

Para Diego Montenegro, a premiação contribui para a consolidação de uma abordagem humanista na Geografia. “É um reconhecimento importante para mim, pelo meu trabalho árduo, e também pelo apoio da minha orientadora, a professora doutora Amélia, a quem reputo o pioneirismo nessa abordagem humanista aqui em Manaus. Claro que pessoalmente isso é uma alegria, contudo, penso que extrapolando a realização pessoal e profissional, juntos – professora Amélia e eu – estamos fixando esse marco simbólico. Com um prêmio dessa relevância mostramos que tratar a Geografia, os sujeitos e a cidade de forma humanista não precisa ser uma postura ‘outsider’, mas pode ser um olhar mais comum nosso para nossa cidade dentro da academia”, disse.

Diversidade algorítmica

Estudando o sistema de reconhecimento facial DeepFace, Mayane Batista investigou, em sua tese, como subjetividades humanas são transformadas em parâmetros técnico-computacionais nos sistemas de análise facial baseados em inteligência artificial (IA). “Eu procurei compreender como atributos fenotípicos e identitários são capturados, classificados, quantificados e convertidos em variáveis numéricas dentro dessas arquiteturas algorítmicas. Mais do que perguntar simplesmente se um algoritmo é ou não enviesado, a pesquisa buscou compreender como esses processos classificatórios são produzidos e quais corpos, identidades e diferenças tornam-se reconhecíveis ou, ao contrário, invisíveis dentro da máquina”, explicou a pesquisadora.

A construção da tese exigiu a participação da pesquisadora em diferentes espaços de produção, circulação e discussão sobre IA, como laboratórios, conferências, grupos de pesquisa e hackathons para a produção de uma Etnografia da Ciência e da Tecnologia. De março a agosto de 2023, Mayane participou de atividades no Grupo de Estudos em Inteligência Artificial, da Universidade de São Paulo (USP), onde aprendeu programação e explorou linguagens e bibliotecas computacionais.

Na etapa experimental, Mayane Batista desenvolveu, por meio de engenharia reversa, o Diversity in Artificial Intelligence (DIA), em que pôde explorar o código da aplicação para investigar mecanismos de classificação e as tensões existentes entre autodeclaração, aparência, raça, gênero e reconhecimento algorítmico. É nesse ponto que a pesquisadora identifica um dos principais resultados da tese: “O problema da diversidade algorítmica não pode ser reduzido à quantidade de pessoas representadas em um banco de dados ou à uma correção matemática de um modelo. A pesquisa mostrou que, quando tentamos construir um sistema mais equilibrado, como eu tentei fazer no DAI, pode-se acabar produzindo novas formas de classificação. O DAI foi criado como um contraponto aos vieses identificados no DeepFace, buscando trabalhar questões de gênero e raça, mas acabou revelando uma especialização em colorismo, ou seja, a tentativa de corrigir uma forma de desigualdade não necessariamente elimina a lógica classificatória, ela pode deslocá-la e produzir outra configuração do problema”, relatou.

Segundo a autora da tese, a experiência do DAI mostrou que não existe uma solução técnica para a questão da equidade algorítmica. “Raça para a máquina são números, números são codificados, pensados e programados. A IA, a máquina, o robô ou que quer que seja não ‘enxerga’ uma raça, mas produz uma determinada forma de classificá-la a partir dos parâmetros que foram inscritos em sua arquitetura. O DAI não produziu uma gramática equitativa, e isso não representou um fracasso técnico, pelo contrário, tornou-se um resultado antropológico: a de me permitir visualizar como as próprias tentativas de produzir equidade permanecem atravessadas por categorias e regimes de classificação”, concluiu.

Confira a tese de Mayane Batista AQUI.

As liturgias de Manaus

A partir de sua vivência enquanto manauara que testemunhou as transformações da cidade do século XX para o século XXI, Diego Montenegro busca com sua pesquisa de doutorado uma abordagem mais humanista sobre o que se chama “modernização” de Manaus.

“O objetivo da tese é demonstrar que a cidade de Manaus é construída e movida por meio de um fenômeno que eu chamo de ‘liturgias urbanas’. A partir daí eu busquei demonstrar os fundamentos e as características dos ritos litúrgicos que têm construído a cidade e seus sujeitos e, com isso, resultando em uma paleta de hábitos litúrgicos na cidade que eu chamo de ‘calendário litúrgico’. Eu diria que, em suma, meu objetivo foi demonstrar a natureza profunda, controversa e encarnada pela qual nossa cidade tem se construído nas últimas décadas e isso por meio dessas liturgias”, explicou o pesquisador.

Na pesquisa, o olhar para Manaus se enfoca em três áreas: a Beira, a Moderna e a Metrópole. Com base em uma metodologia de abordagem humanista e no método fenomenológico-hermenêutico sobre a urbanização da cidade de Manaus, Diego analisa as categorias por meio das vivências dos sujeitos contactados na pesquisa de campo. “Por isso, trabalhamos com duas categorias caríssimas para a ciência geográfica que são Paisagem e Lugar e, a partir daí, fizemos uma série de abordagens a pessoas em várias localizações da cidade como o Mercado Adolpho Lisboa, o Centro Comercial – como na Rua Dr. Moreira, por exemplo – vários pontos do Distrito Industrial, do centro de serviços nas imediações da Avenida Djalma Batista e outros pontos ainda. O conjunto desses princípios metodológicos e desses procedimentos caracteriza a pesquisa como uma tese de Geografia Urbana, Cultural, Humanista, Fenomenológica, enfim, de Geografia Humana”, classificou.

O calendário litúrgico de Manaus é, segundo o pesquisador, o principal resultado da tese, em que é possível identificar o fluxo dos três ritos litúrgicos da cidade (Beira, Moderna e Metrópole) ao longo dos meses do ano. “Eu diria que a tese entrega uma espécie de guia para entender Manaus como uma história contada por meio dos lugares e dos hábitos enquanto ritos que caminham em procissão da beira do rio para o centrão, de lá para o distrito, de lá pra Djalma Batista, para os rincões da cidade etc.”, concluiu Diego Montenegro.

Para a orientadora da pesquisa, a tese de Diego traz contribuições teóricas e metodológicas para a ciência geográfica: “Trabalhamos na perspectiva da Geografia Humanista Cultural, em que as geograficidades dos sujeitos com seus lugares, paisagens, territórios são reconhecidos a partir dos sujeitos que os vivem. No caso da pesquisa do Diego, procuramos compreender Manaus, ouvindo as pessoas que tem envolvimento existencial com os seus lugares na cidade. Nessa dinâmica existem diferentes liturgias. Essas discussões levam a compreensão de uma cidade cheia de significados. Não é comum a Geografia estudar a cidade a partir das relações de existência entre as pessoas e seus lugares, esse é um diferencial no trabalho do Diego”, afirmou Amélia Regina Batista Nogueira.

Confira a tese de Diego Montenegro AQUI.

Fonte: UFAM.

Foto: Reprodução

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