A expansão da infraestrutura de inteligência artificial do Google na Finlândia encontrou um obstáculo ambiental. A autoridade nacional responsável pelo licenciamento e pela fiscalização determinou a suspensão de intervenções preparatórias em dois terrenos destinados à construção de data centers, enquanto são apuradas possíveis irregularidades relacionadas à derrubada de áreas florestais.
Os empreendimentos estão previstos para Muhos e para a região de Otanmäki, no município de Kajaani. Os projetos são conduzidos pela Tuike Finland Oy, subsidiária do Google no país, e integram o plano da companhia para ampliar sua capacidade de processamento de dados e inteligência artificial na Europa.
A controvérsia ganhou dimensão depois que imagens e relatos mostraram extensas áreas desmatadas antes da conclusão dos respectivos processos de avaliação de impacto ambiental. Reportagem do jornal britânico The Guardian estima que aproximadamente 250 mil árvores tenham sido derrubadas no terreno de Muhos. O número, entretanto, não representa uma contagem oficial das autoridades finlandesas e deve ser apresentado como estimativa jornalística.
Também houve intervenções no terreno de Otanmäki, mas os números divulgados sobre essa segunda área variam. Entre as atividades questionadas estão a retirada de árvores e da camada superficial do solo, a construção de estradas, a abertura de valas e alterações no sistema de drenagem.
Em setembro, a Autoridade Finlandesa de Licenciamento e Supervisão solicitou explicações à Tuike Finland, à administração municipal de Muhos e à cidade de Kajaani. Em 6 de outubro, o órgão orientou a interrupção das intervenções com potencial de causar impactos ambientais enquanto avalia o caso.
A polícia finlandesa também investiga suspeitas relacionadas ao corte da vegetação. Isso significa que ainda não existe, nas fontes públicas consultadas, uma decisão judicial definitiva que tenha declarado o Google culpado por desmatamento ilegal. A formulação mais precisa é que as possíveis irregularidades estão sob investigação.
O diretor do Google na Finlândia, Antti Järvinen, pediu desculpas pela situação. Segundo ele, a empresa acreditava que as intervenções estavam de acordo com a legislação florestal e que as autoridades tinham conhecimento das atividades previstas. A companhia informou que pretende colaborar com os órgãos responsáveis e reconheceu que, nesse episódio, ficou abaixo dos próprios padrões ambientais.
Como parte das medidas anunciadas, o Google afirma que pretende plantar árvores em aproximadamente 130 hectares na área de Muhos, além de executar projetos voltados à biodiversidade e à proteção das fontes de água. Ambientalistas ponderam, porém, que o replantio não recompõe imediatamente os serviços ecológicos de uma floresta já estabelecida.
Os projetos fazem parte de um investimento mais amplo de € 13 bilhões anunciado pelo Google para a Finlândia. Os recursos deverão ser aplicados, principalmente em 2027 e 2028, na expansão da infraestrutura digital e de inteligência artificial, em soluções de energia limpa e em iniciativas destinadas às comunidades locais.
A Finlândia tornou-se atrativa para data centers por reunir clima frio, disponibilidade de energia de baixo carbono e uma rede elétrica considerada estável. Essas instalações, entretanto, precisam de grandes terrenos, elevada quantidade de eletricidade, sistemas de refrigeração e infraestrutura de transmissão. A corrida mundial pela inteligência artificial começa, assim, a colocar os impactos físicos da economia digital no centro do debate.
O caso mostra que a nuvem não é uma estrutura sem território. Por trás dos serviços digitais existem edifícios, linhas de transmissão, sistemas de resfriamento e intervenções no ambiente. A apuração finlandesa deverá esclarecer se as obras desrespeitaram a legislação e quais responsabilidades poderão ser atribuídas. Até lá, é necessário distinguir a suspeita investigada de uma ilegalidade definitivamente comprovada.
FONTE – REDAÇÃO
FOTO/DIVULGAÇÃO – Stockcake


