Quando jovens começam a vida profissional comprometidos com dívidas, o problema deixa de ser apenas pessoal. Para uma economia como a de Manaus, fortemente dependente do trabalho, do consumo e da indústria, a saúde financeira das novas gerações também precisa entrar na agenda das empresas.
Manaus vive uma realidade que deveria acender um sinal de alerta entre empresários, gestores e profissionais de Recursos Humanos. Levantamento divulgado pela Fecomercio/SP mostrou que 49% das famílias de Manaus começaram 2026 com contas em atraso, colocando a capital amazonense entre aquelas com maior proporção de inadimplência no país. Paralelamente, cresce uma preocupação nacional: a entrada da Geração Z no mercado de trabalho já ocorre acompanhada por dificuldades financeiras relevantes. Dados apresentados pela Veja indicam que jovens de 15 a 29 anos se tornaram a faixa mais inadimplente do Brasil e concentraram 57,1% das buscas pelo termo “quitar dívidas” entre abril de 2025 e março de 2026. Estamos falando justamente da geração que começa agora a ocupar espaço cada vez maior nas empresas, no comércio, nos serviços e no Polo Industrial de Manaus.
O paradoxo chama atenção. Essa é provavelmente a geração que mais teve acesso a informações sobre dinheiro, investimentos, orçamento e finanças pessoais. Ao mesmo tempo, cresceu em um ambiente de consumo praticamente instantâneo: cartão de crédito no celular, compras realizadas em poucos segundos, parcelamentos, aplicativos, publicidade personalizada, redes sociais e permanente comparação de estilos de vida. O acesso ao crédito entre os jovens brasileiros praticamente dobrou: passou de 13,7 milhões em 2016 para 27,6 milhões em 2024. Em 2024, aproximadamente 13 milhões deles utilizaram crédito rotativo ou parcelado, modalidades que podem comprometer seriamente o orçamento quando usadas sem planejamento. Informação disponível, portanto, não significa necessariamente conhecimento aplicado. Saber que é preciso economizar é diferente de possuir comportamento, disciplina e planejamento capazes de transformar essa informação em decisões financeiras sustentáveis.
Para Manaus, essa discussão assume uma dimensão ainda maior por causa da importância econômica do Polo Industrial. Somente no primeiro semestre de 2026, o PIM faturou R$ 121,76 bilhões e manteve média mensal de 130.903 empregos, segundo a Suframa. Uma parcela crescente dessa força de trabalho será formada por integrantes das novas gerações. Por isso, quando um jovem trabalhador chega à empresa comprometendo uma parcela relevante do salário com cartão de crédito, empréstimos, financiamentos ou outras dívidas, a questão não termina no orçamento doméstico. A preocupação financeira pode acompanhá-lo durante o expediente. Problemas com dinheiro disputam atenção mental com as atividades profissionais e podem afetar concentração, capacidade de decisão, relacionamentos e desempenho. Não se trata de afirmar que a dívida seja, isoladamente, responsável pela baixa produtividade de um empregado, mas de reconhecer que saúde financeira e desempenho profissional não são mundos completamente separados.
Esse debate ganha importância em um momento no qual a produtividade brasileira já apresenta sinais preocupantes. Dados do Observatório da Produtividade Regis Bonelli, da FGV IBRE, mostram que, no primeiro trimestre de 2026, a produtividade por hora efetivamente trabalhada recuou 0,5% em comparação ao mesmo período de 2025. Já a Produtividade Total dos Fatores apresentou queda de 1,5% pelo critério das horas efetivamente trabalhadas. Evidentemente, produtividade é resultado de vários elementos — tecnologia, qualificação, gestão, investimento, infraestrutura, processos e ambiente econômico. Seria incorreto atribuir sua queda ao endividamento. Entretanto, ignorar o componente humano também seria um erro. Um profissional preocupado permanentemente com cobranças, vencimentos, falta de dinheiro e dificuldade para sustentar o orçamento familiar pode ter sua atenção e capacidade cognitiva comprometidas. Para empresas que trabalham diariamente com metas, qualidade, segurança, produção e eficiência, essa questão merece atenção estratégica.
Existe ainda outra consequência menos percebida. O jovem excessivamente endividado posterga decisões importantes: construir uma reserva financeira, investir, adquirir um imóvel, empreender ou simplesmente consumir com planejamento. Dados da Serasa citados pela DW mostram que, em maio de 2026, os brasileiros entre 18 e 25 anos representavam 11% dos inadimplentes e que o valor médio das dívidas dessa faixa passou de aproximadamente R$ 2 mil em maio de 2020 para R$ 3,6 mil em maio de 2026. Quando milhares de jovens enfrentam simultaneamente essa situação, as consequências podem ultrapassar as famílias: diminui a capacidade de consumo futuro, reduz-se a formação de patrimônio e aumenta a vulnerabilidade diante de desemprego ou emergências. Em uma economia regional que depende fortemente da atividade industrial, do comércio e dos serviços, consumidores financeiramente fragilizados também representam um desafio para quem empreende.
É justamente nesse ponto que as empresas de Manaus, especialmente as organizações do Polo Industrial, podem transformar um problema em oportunidade. Educação financeira corporativa não deveria ser tratada apenas como benefício ou palestra eventual, mas como instrumento de gestão de pessoas e prevenção. Programas estruturados podem ensinar colaboradores a organizar o orçamento, compreender o custo verdadeiro do crédito, identificar causas comportamentais do endividamento, renegociar dívidas, construir reserva de emergência e estabelecer objetivos financeiros. Para os profissionais da Geração Z, é importante ainda incorporar temas próprios de sua realidade: consumo digital, compras por impulso, influência das redes sociais, apostas, facilidade do crédito e comparação social. Curiosamente, essa própria geração começa a utilizar as redes para compartilhar processos de reorganização financeira e movimentos como o chamado loud budgeting, no qual as pessoas assumem publicamente seus limites de gastos e prioridades. A tecnologia que estimula o consumo também pode, portanto, tornar-se instrumento de educação.
O desafio para Manaus não é impedir que os jovens consumam, utilizem crédito ou busquem uma vida melhor. É ajudá-los a compreender que renda sem planejamento pode produzir endividamento, enquanto conhecimento aliado a comportamento pode produzir patrimônio. Escolas e famílias têm responsabilidade nesse processo, mas empresas também possuem uma oportunidade extraordinária, porque é no primeiro emprego e nos primeiros salários que muitos hábitos financeiros da vida adulta começam a se consolidar. O Polo Industrial de Manaus construiu durante décadas uma história de produção, tecnologia e geração de empregos; agora, pode avançar também na construção de trabalhadores financeiramente mais preparados. Investir na saúde financeira da Geração Z não significa assumir as dívidas dos colaboradores. Significa oferecer conhecimento e ferramentas para que eles recuperem autonomia sobre suas decisões. Uma empresa não controla o que seu funcionário faz com o salário depois que o recebe, mas pode ajudá-lo a compreender melhor o que fazer com ele. E, no longo prazo, trabalhadores financeiramente mais saudáveis podem significar famílias mais equilibradas, empresas mais sustentáveis e uma economia amazonense mais forte.
Alon Hans é engenheiro de Telecomunicações, consultor e educador financeiro, palestrante, professor, articulista e escritor. Atua há mais de 15 anos com consultoria para pessoas e empresas, com foco em educação financeira, empreendedorismo, negócios e investimentos.
Possui quase 26 anos de experiência em indústrias nacionais e multinacionais, com atuação nas áreas de Produção, Engenharia, Projetos e Gestão Operacional.
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