Gree amplia portfólio no Brasil e abre perspectivas para a fábrica de Manaus

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A Gree anunciou recentemente a ampliação de seu portfólio no Brasil com a comercialização dos modelos residenciais SmartWind e G-Side Auto Inverter, além de apresentar atualizações na linha comercial G-Prime Inverter, disponível nas versões Compact e Plus e nas configurações Piso-Teto e Cassete.

Com esse movimento de fortalecimento da marca em diferentes segmentos da climatização, abre-se espaço para uma discussão importante no Amazonas: até que ponto o crescimento comercial da companhia poderá se transformar em aumento de produção, modernização tecnológica e novos investimentos na fábrica instalada no Polo Industrial de Manaus (PIM)?

O que Manaus tem a ver com essa expansão

A relação com o Amazonas é direta porque a principal estrutura industrial da Gree no Brasil está localizada em Manaus. A empresa iniciou suas operações no país em 1995 e instalou, em 2001, sua primeira fábrica na Zona Franca de Manaus (ZFM), após um investimento de US$ 20 milhões. Em 2018, aplicou outros US$ 28 milhões na implantação de uma nova unidade industrial.

Atualmente, a operação reúne mais de 1.700 funcionários diretos, ocupa aproximadamente 100 mil metros quadrados e possui capacidade para fabricar até 2 milhões de aparelhos de ar-condicionado por ano. A companhia também afirma que a unidade brasileira trabalha integralmente com produtos próprios da marca.
Esses números ajudam a dimensionar a importância da fábrica de Manaus dentro da estratégia nacional da Gree. A empresa mantém no PIM não apenas uma linha de montagem, mas uma base industrial de grande porte, capaz de atender diferentes categorias de condicionadores de ar e abastecer uma rede comercial que alcança mais de 3 mil pontos de venda no Brasil.

Por isso, o aumento do portfólio nacional pode representar uma oportunidade para a operação amazonense. Quanto maior for o número de produtos incorporados à fabricação local, maior poderá ser a necessidade de adequação de linhas, aquisição de equipamentos, treinamento de trabalhadores, contratação de fornecedores e ampliação das atividades de engenharia e controle de qualidade.
Entretanto, é necessário estabelecer uma distinção importante: o lançamento dos produtos no Brasil não confirma, por si só, que todos os novos modelos serão produzidos em Manaus. Até o momento, as informações públicas disponíveis não permitem afirmar quais versões do SmartWind, do G-Side Auto Inverter e da linha G-Prime Inverter atualizada sairão da fábrica do PIM, nem anunciam formalmente aumento imediato da capacidade produtiva, contratação de funcionários ou novos investimentos industriais relacionados aos lançamentos.
Portanto, o eventual crescimento da planta deve ser tratado como uma possibilidade sustentada pela dimensão da operação brasileira e pela ampliação do mercado, e não como uma expansão já confirmada.

Uma estratégia que avança em várias frentes

Os lançamentos de julho não são uma ação isolada. Em maio, a Gree já havia anunciado no mercado brasileiro o VRF GMV Mini/Slim e a linha Modular 220V, voltados a projetos comerciais, corporativos e empreendimentos de médio e grande porte. A oferta foi estruturada por meio de parceria exclusiva com a Leveros.

Os sistemas GMV são destinados a aplicações como hotéis, hospitais, clínicas, escolas e edifícios comerciais. O GMV6, por exemplo, foi apresentado com capacidade para conectar até 80 ambientes internos em um único sistema. Já os modelos Mini e Slim foram desenvolvidos para projetos que dispõem de áreas reduzidas para instalação das unidades externas.

Em conjunto, essas iniciativas mostram uma estratégia de ocupação de diferentes faixas do mercado: residencial de maior valor agregado, consumidores que priorizam custo-benefício, pequenos negócios e grandes projetos corporativos. Assim, a Gree amplia sua atuação para além da venda do aparelho doméstico tradicional e passa a disputar também o mercado de soluções completas de climatização.

Essa diversificação pode beneficiar Manaus em duas dimensões. A primeira é quantitativa: um portfólio maior pode elevar os volumes de produção, caso a demanda responda positivamente. A segunda é qualitativa: aparelhos mais conectados e inteligentes exigem processos industriais mais sofisticados e maior integração entre mecânica, eletrônica e software.

Oportunidade para a cadeia local

A possível repercussão sobre o PIM não se limita aos empregos gerados diretamente pela Gree. Novas linhas e tecnologias podem estimular fornecedores de embalagens, componentes plásticos, cabos, peças metálicas, placas eletrônicas e serviços industriais. A própria companhia inclui entre suas estratégias a qualificação de fornecedores críticos e a melhoria contínua de processos, produtividade e qualidade.

A empresa também está entre as indústrias submetidas às obrigações de investimento em pesquisa, desenvolvimento e inovação previstas na legislação da Zona Franca de Manaus (ZFM) e vinculadas ao Processo Produtivo Básico (PPB). Esse enquadramento reforça a possibilidade de conexão entre a fabricação de equipamentos mais inteligentes e o ecossistema regional de pesquisa, desenvolvimento e inovação (PD&I), embora não permita afirmar que os lançamentos atuais estejam vinculados a um projeto específico desenvolvido no Amazonas.
O desafio central para Manaus é aproveitar esse tipo de atualização para aumentar o conteúdo tecnológico produzido localmente. O avanço mais relevante seria incorporar etapas de desenvolvimento, testes, engenharia, software embarcado e nacionalização de componentes.

Crescimento dependerá da resposta do mercado
A expansão efetiva da planta amazonense dependerá de fatores como o desempenho das vendas, o ritmo de nacionalização dos modelos, a utilização da capacidade instalada e as decisões globais da companhia. Com capacidade declarada para fabricar até 2 milhões de unidades por ano, a Gree possui espaço industrial relevante, mas não divulga publicamente qual percentual dessa capacidade está atualmente ocupado.
Também será necessário acompanhar se a empresa apresentará novos projetos ao Conselho de Administração da Suframa (CAS) ou ao Conselho de Desenvolvimento do Estado do Amazonas (CODAM), órgãos responsáveis pela análise de projetos de investimento, diversificação e atualização industrial incentivada.

O anúncio, portanto, ainda não representa a confirmação de uma ampliação física da fábrica. Mas constitui um sinal importante. Ao renovar e ampliar seu portfólio, a Gree fortalece sua presença no país e aumenta as possibilidades de que sua base industrial em Manaus seja chamada a acompanhar esse crescimento.

Em relação ao Polo Industrial de Manaus (PIM), o ponto central está na oportunidade de transformar a evolução da climatização, cada vez mais conectada, eficiente e orientada por inteligência artificial, em produção, inovação e desenvolvimento tecnológico realizados na Amazônia.

Cristina Monte é jornalista, colunista e analista de negócios, especializada na cobertura de indústria, inovação e desenvolvimento econômico na Amazônia.

FOTO/DIVULGAÇÃO – GREE

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