Por que a Jovi vem ganhando espaço no mercado de smartphones

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Entrar em um mercado ocupado por marcas conhecidas exige mais do que lançar um bom aparelho. É preciso convencer o consumidor a experimentar uma alternativa, conquistar espaço nas lojas, oferecer assistência e construir confiança. No caso da Jovi, essa estratégia também passa por Manaus: a cidade é base da produção nacional e começa a ganhar importância como mercado consumidor da marca.

A fabricante chegou ao Brasil em 2025 com produção no Polo Industrial de Manaus (PIM), por meio de parceria com a GBR Componentes. Desde então, ampliou o portfólio para alcançar públicos com necessidades e faixas de renda diferentes – de consumidores que procuram autonomia de bateria e resistência a profissionais dispostos a transformar o celular em ferramenta de criação audiovisual.

Essa afirmação faz sentido pelo comportamento da companhia. Durante evento realizado em Manaus, na quinta-feira (1º/10) , a Jovi apresentou a linha premium X300, voltada especialmente à fotografia e à produção de vídeos. A iniciativa aproxima do público local o segmento mais sofisticado da marca, mas também integra uma estratégia mais ampla: não depender de um único produto ou perfil de consumidor para disputar o mercado brasileiro.

Segundo informações apresentadas pela companhia no evento, o Amazonas concentra 18,4% dos pontos de venda da Jovi na Região Norte. Entre janeiro e setembro de 2026, o estado respondeu por 36% das vendas da marca na região.
A diferença entre os dois percentuais é significativa. O Amazonas representa menos de um quinto dos pontos de venda da Jovi no Norte, mas concentra mais de um terço das vendas regionais. O resultado indica um desempenho comercial proporcionalmente superior à participação do estado na rede de distribuição da empresa.

Manaus ocupa, assim, uma posição dupla: fabrica aparelhos destinados ao mercado nacional e, ao mesmo tempo, funciona como espaço para testar a capacidade da marca de conquistar o consumidor.

Um aparelho para cada público
A estratégia da Jovi está apoiada na ampliação do mix. Em vez de apostar somente em um modelo intermediário ou de entrar diretamente em uma disputa limitada aos aparelhos de menor preço, a empresa estruturou linhas com propostas diferentes.

A linha Y atende consumidores que priorizam autonomia de bateria, resistência e funções utilizadas no cotidiano. A linha V ocupa uma faixa intermediária mais sofisticada, combinando desempenho, câmeras e design. No topo está a linha X300, direcionada a quem busca recursos avançados de fotografia e vídeo.

Essa variedade permite que a marca converse com diferentes públicos sem abandonar a tentativa de construir uma identidade própria. O consumidor que procura um aparelho funcional e resistente não é necessariamente o mesmo que utiliza o smartphone para produzir conteúdo, registrar eventos, trabalhar com redes sociais ou gravar vídeos profissionalmente.

A vinda da série X300 a Manaus torna essa divisão mais visível. O X300 Fashion Edition aposta em um formato compacto, com recursos de imagem voltados ao uso cotidiano e à produção de conteúdo. Já o X300 Ultra foi apresentado como um equipamento de alto desempenho para fotografia e vídeo, acompanhado de acessórios que aproximam a experiência de uso daquela oferecida por câmeras profissionais.

O modelo Ultra possui três câmeras traseiras desenvolvidas em colaboração com a empresa alemã de tecnologia óptica Zeiss, recursos de estabilização, gravação em alta resolução e acessórios como extensores de telefoto e empunhadura para fotografia. O preço sugerido do kit, de R$ 19.999 no lançamento nacional, deixa claro que não se trata de um aparelho destinado ao mercado de massa.

Essa escolha, entretanto, cumpre outra função. Produtos de maior valor ajudam a apresentar a capacidade tecnológica da fabricante, enquanto as linhas intermediárias e de entrada buscam ampliar o volume de vendas. O topo de linha cria visibilidade e posicionamento; os demais modelos sustentam a expansão para um público mais amplo.

Produzir em Manaus faz parte da estratégia
A relação da Jovi com o Amazonas começou antes da apresentação da linha X300. A produção dos primeiros smartphones foi iniciada em Manaus em janeiro de 2025, inicialmente em fase de testes, por meio da parceria com a GBR Componentes.
A empresa informa que a operação utiliza profissionais brasileiros, com suporte técnico de especialistas chineses, e já incorporou componentes e materiais de embalagem fornecidos por parceiros locais.

Em maio de 2026, ao completar um ano de atuação no país, a Jovi anunciou que havia aumentado em cinco vezes a capacidade produtiva em Manaus, de 100 mil para 500 mil unidades. A companhia também informou possuir mais de mil funcionários em sua operação brasileira, nove escritórios regionais e presença em mais de 1,8 mil pontos de venda.

Os números são divulgados pela própria empresa e mostram a velocidade da expansão pretendida. Mas produzir localmente não resolve, por si só, o desafio de ganhar participação em um mercado competitivo. O aparelho precisa chegar ao varejo, ser conhecido pelo consumidor e contar com assistência depois da venda.

Por isso, a estratégia combina produção, distribuição, portfólio e presença regional. Ao realizar uma apresentação em Manaus, a Jovi procura reduzir a distância entre a fábrica e o público de um estado que já responde por uma parcela relevante de suas vendas no Norte.

Confiança também entra na disputa

A Jovi é o nome adotado exclusivamente no Brasil pela fabricante chinesa vivo Mobile Communication Co., Ltd. A mudança foi necessária para evitar confusão com a operadora Vivo, pertencente ao grupo Telefónica e sem relação com a fabricante de celulares.

Embora a empresa-mãe possua presença internacional e mais de 500 milhões de usuários, a marca Jovi chegou praticamente desconhecida para boa parte dos consumidores brasileiros. Construir reconhecimento tornou-se, portanto, uma das primeiras barreiras de entrada.

Nesse cenário, preço e especificações técnicas não são suficientes. Para uma marca nova, assistência, garantia e disponibilidade no varejo pesam na decisão de compra. A companhia tenta responder a essa preocupação com pacotes de pós-venda que variam conforme a linha e podem incluir garantia estendida, proteção para componentes e revisões periódicas.

A estratégia também contempla lojas próprias, grandes redes varejistas, operadoras, marketplaces e distribuidores regionais. É uma tentativa de fazer a marca aparecer tanto no ambiente digital quanto nos locais onde o consumidor pode conhecer e testar fisicamente o aparelho.

Essa proximidade ganha importância em um produto de uso diário e valor elevado. Diferentemente de uma compra eventual, o smartphone concentra comunicação, trabalho, serviços bancários, documentos, entretenimento e produção de conteúdo. A confiança na marca acompanha a confiança no próprio aparelho.

Expansão em um mercado pressionado

Esse desempenho da marca acontece em um momento desafiador. Segundo a Counterpoint Research, o mercado brasileiro de smartphones recuou 11% no primeiro semestre de 2026. O setor enfrenta aumento dos custos de componentes, especialmente memórias, além da desaceleração das vendas e do prolongamento do tempo de uso dos aparelhos.

Esse ambiente torna a diversificação do portfólio ainda mais relevante. Uma empresa concentrada apenas nos modelos mais baratos pode ficar mais exposta à alta dos componentes e às margens reduzidas. Por outro lado, atuar somente no segmento premium limita o número potencial de consumidores.

Ao distribuir sua oferta entre diferentes faixas, a Jovi tenta reduzir essa dependência. A linha de entrada busca volume; os aparelhos intermediários disputam consumidores interessados em equilíbrio entre preço e desempenho; e os modelos premium trabalham imagem, inovação e valor de marca.

O importante é que a Jovi evite que a variedade se transforme em dispersão. Cada linha precisa ter uma proposta compreensível, distribuição adequada e preço compatível com o público que pretende alcançar. Também será necessário transformar a curiosidade inicial em vendas recorrentes e fidelização.

O Amazonas além da linha de montagem

A presença da marca amplia a diversidade do segmento de bens de informática e fortalece Manaus como base nacional da indústria de smartphones. A competição pode movimentar fornecedores, serviços, logística, qualificação profissional e desenvolvimento de processos industriais.

Mas o desempenho informado no evento acrescenta outra dimensão. O Amazonas não aparece apenas como o lugar onde os aparelhos são montados. O estado também desponta como mercado relevante para a estratégia comercial da empresa.

Responder por 36% das vendas da Jovi no Norte, mesmo concentrando 18,4% dos pontos de venda regionais, sugere que há espaço para ampliar distribuição, ações de relacionamento, demonstrações de produtos e assistência local. É uma oportunidade de aproximar indústria e consumidor dentro do mesmo território.

O evento da linha X300 simboliza essa oportunidade. Ao levar a Manaus o produto mais sofisticado de seu portfólio, a empresa não está apenas apresentando câmeras, processadores e acessórios. Está tentando mostrar que pretende atuar em várias camadas do mercado – do aparelho funcional ao equipamento voltado à criação profissional.

A estratégia ainda precisará ser medida ao longo do tempo. O mercado de smartphones é concentrado, muda rapidamente e exige investimentos contínuos em distribuição, comunicação e pós-venda. Para a Jovi, fabricar em Manaus foi a porta de entrada. O passo seguinte é fazer com que diferentes públicos reconheçam a marca, encontrem um produto adequado às suas necessidades e tenham segurança para escolhê-la. Pelos resultados divulgados até agora, essa estratégia parece estar indo de vento em popa.

Cristina Monte é jornalista, colunista e analista de negócios, com atuação na cobertura de indústria, inovação e desenvolvimento econômico na Amazônia.

REDAÇÃO

FOTO/DIVULGAÇÃO – Jovi

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