Como a expansão da Total Express deve impulsionar pequenos negócios no interior do AM

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A chegada de uma encomenda ao interior do Amazonas depende de uma logística muito diferente daquela encontrada nos grandes centros urbanos. Em cidades sem ligação rodoviária com Manaus, o percurso pode envolver avião, balsa, barco regional, transbordos e distribuição local. Por isso, o avanço de uma operação logística privada para Parintins, Tefé, Coari, Maués e Manicoré merece ser analisado menos pela velocidade e mais pela possibilidade de ampliar a regularidade e a previsibilidade das entregas.

A Total Express anunciou a expansão de sua rede para 5.165 municípios brasileiros, depois da incorporação de 172 cidades e 4.500 novos Códigos de Endereçamento Postal (CEPs). A nova cobertura alcança 16 estados e inclui localidades que exigem diferentes combinações de transporte.

No Amazonas, Parintins aparece como um dos exemplos dessa estratégia. Segundo as informações divulgadas sobre a expansão, as encomendas destinadas ao município seguem em balsas a partir de Manaus. A operação insere o transporte fluvial na cadeia que conecta empresas de outras regiões aos consumidores da ilha.

A inclusão de Parintins faz parte de um movimento mais amplo. Aproximadamente 41 municípios do Amazonas e do Pará são atendidos por rotas fluviais conectadas às estruturas logísticas de Manaus e Belém. Entre as cidades amazonenses mencionadas estão também Tefé, Coari, Maués e Manicoré. O número de 41 localidades corresponde aos dois estados em conjunto.

Mais importante do que prometer rapidez

O principal efeito potencial dessa expansão não está necessariamente em tornar as entregas rápidas. As distâncias, os transbordos, a dependência das embarcações e a variação do nível dos rios impõem limites que não podem ser eliminados apenas pela entrada de uma nova transportadora.

Para os municípios do interior, o ganho mais relevante poderá estar na frequência e na previsibilidade do serviço. Saber que uma encomenda será embarcada regularmente e que existe uma estrutura definida para completar a entrega pode ser mais importante para consumidores e comerciantes do que uma promessa de prazo incompatível com a realidade geográfica.

Essa previsibilidade pode ajudar pequenos negócios a planejar estoques, repor mercadorias e comprar insumos de fornecedores localizados fora do estado. Também pode facilitar o acesso da população a produtos que não são encontrados no comércio local.

Há ainda uma possibilidade no sentido inverso: se a rede oferecer coleta e não apenas entrega, pequenos vendedores do interior poderão utilizá-la para enviar seus produtos a consumidores de outras localidades. Essa hipótese, entretanto, precisa ser confirmada pela empresa, porque os materiais divulgados não detalham as condições de postagem, coleta e logística reversa em cada município.

A logística reversa é outro ponto relevante. Trocas, devoluções e manutenção de produtos comprados pela internet costumam ser mais difíceis fora das capitais. Uma operação estruturada pode reduzir essa barreira, mas seu alcance dependerá dos serviços efetivamente oferecidos em cada cidade.

A concorrência começa a olhar além de Manaus

É correto dizer que boa parte dos investimentos privados de logística no Amazonas historicamente se concentra em Manaus, onde estão o Polo Industrial, os principais portos, o Aeroporto Internacional Eduardo Gomes e a maior parcela do mercado consumidor estadual. Não seria correto, porém, afirmar que as demais empresas ignoram completamente o interior.
Os Correios continuam sendo a rede de maior capilaridade. A estatal informa que seus serviços de encomendas, incluindo o Serviço de Encomenda Expressa Nacional (Sedex) e a encomenda econômica PAC, chegam a todos os municípios brasileiros. Sua presença cumpre um papel de integração territorial que antecede a expansão das transportadoras privadas.

A FedEx também mantém transporte fluvial na Região Norte. A companhia informa atender mais de 80 municípios nortistas por rios e operar conexões como Belém–Manaus, Belém–Macapá e Belém–Santarém. Essa rede transporta produtos como cosméticos, calçados, autopeças, eletroeletrônicos e motocicletas.

No Amazonas, operadores regionais já realizam o transporte de cargas para cidades acessíveis predominantemente pelos rios. A Manaus Transportes, por exemplo, divulga atendimento a municípios como Coari, Tefé, Tabatinga, Parintins, Maués e São Gabriel da Cachoeira. A Decisivo Transportes informa atuar com interiorização e distribuição fluvial para Coari, Tefé e outras localidades. Essas empresas, contudo, trabalham com perfis variados de carga e não devem ser tratadas automaticamente como concorrentes diretas no mesmo modelo de pequenas encomendas do comércio eletrônico.

Portanto, a importância da entrada da Total Express não está em criar uma rota onde nada existia, mas em adicionar uma operadora nacional especializada em encomendas a um mercado que ainda dispõe de menos alternativas privadas fora de Manaus.

Uma operação que precisará provar regularidade

A expansão pode aumentar a concorrência, criar novas opções para plataformas de comércio eletrônico e reduzir a dependência de poucos prestadores. Mas seus efeitos ainda precisarão ser observados na prática.
A Total Express não divulgou ainda a periodicidade das viagens, os prazos específicos, os valores de frete nem se haverá coleta domiciliar e logística reversa em todos os municípios mencionados. Também não detalhou como a operação responderá às secas severas, quando a redução da profundidade dos rios pode limitar embarcações, prolongar percursos e elevar custos.

É nesse conjunto de respostas que estará o verdadeiro valor da iniciativa. Para Parintins, Tefé, Coari, Maués e Manicoré, o avanço não deve ser medido apenas pelo número de dias entre a compra e a entrega. O resultado será mais relevante se a operação mantiver frequência conhecida, rastreamento, preços viáveis e capacidade de funcionar nas diferentes fases do ciclo dos rios.

Em uma região onde a distância não é medida apenas em quilômetros, mas também em dias de navegação e condições de acesso, regularidade pode ser tão importante quanto rapidez. A entrada de mais uma grande transportadora no interior do Amazonas é, portanto, um sinal positivo de concorrência e interiorização logística, mas sua importância real dependerá da continuidade e da qualidade do serviço. Vamos acompanhar!

 

Cristina Monte é jornalista, colunista e analista de negócios, com atuação na cobertura de indústria, inovação e desenvolvimento econômico na Amazônia.

FOTO/DIVULGAÇÃO – Total Express

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