AMAZÔNIA NÃO SE SUSTENTA SEM O PROTAGONISMO FEMININO: ANCESTRALIDADE, INOVAÇÃO, BIOECONOMIA E NOVAS TECNOLOGIAS

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Introdução
A Amazônia é marcada pela singularidade geográfica na qual os rios são estradas, interligam municípios e comunidades, exigindo deslocamentos longos contabilizados não em horas, mas em dias de viagem. Tal realidade exige resiliência de quem estuda, trabalha, pesquisa e empreende em áreas urbanas, rurais e principalmente em regiões remotas.
Mulheres amazônidas, incluindo lideranças comunitárias, indígenas, cientistas, pesquisadoras e professoras, estão cada vez mais assumindo posições de destaque no cenário regional, superando barreiras de gênero e liderando com inovações que possibilitam a integração dos saberes tradicionais com o conhecimento científico.
As amazônidas desempenham papel de transformação na saúde e educação regional, atuando como pilares de sustentação comunitária, uma vez que representam parte expressiva da força de trabalho, principalmente em regiões isoladas. Ademais, são elas as detentoras dos saberes ancestrais e das tecnologias sociais.
Para tanto, o protagonismo feminino amazônico é pilar fundamental para a sustentabilidade regional, para a preservação da biodiversidade, bioeconomia, defesa dos territórios, inovação social, combate ao desmatamento, exploração ilegal, bem como para o processo de transformação para uma sociedade mais justa e igualitária.
As guardiãs da floresta não podem ser avaliadas a partir de fatores de vulnerabilidade social populacional, uma vez que seu protagonismo e liderança comunitária rompem padrões impostos pelas demais sociedades. Portanto, o protagonismo feminino na Amazônia é uma força de resistência e de esperança que garante a saúde, a educação e futuro para a região.

Mulheres como guardiãs da floresta e dos saberes ancestrais
As mulheres amazônidas, a partir da sua realidade e histórias de vida, têm muito a ensinar, sendo elo entre os mais idosos e os jovens, ensinando-os e passando para a próxima geração hábitos e costumes da comunidade e da família (continuidade geracional).
Na zona rural, as mulheres desempenham múltiplas funções: mães, donas de casa, cozinheiras, agricultoras, curandeiras, parteiras, professoras, agentes de saúde, enfermeiras, médicas, cuidadoras de idosos, são responsáveis pela horta comunitária e dos cultivos agrícolas além de desfrutarem de amplo conhecimento sobre ervas e produtos medicinais oriundos da biodiversidade amazônica.
Acerca das mulheres extrativistas e lideranças comunitárias, sua dedicação fortalece as ações ligadas à saúde e qualidade de vida das comunidades sendo indispensável pela luta contra o desmatamento e defesa dos territórios.
A partir do conhecimento de sementes, cipós, folhas e frutos e das habilidades com trabalhos manuais, transformam produtos da bioeconomia em renda com valorização ambiental (sustentabilidade) e preservação da cultura e identidade regional.

Protagonismo feminino na educação regional: mais escolarizadas, porém, desempregadas
Na imensidão amazônica, cabe às mulheres o protagonismo da educação e transformação social, atuando na educação ribeirinha e comunitária. Nas aldeias, as mulheres indígenas são responsáveis pelo empoderamento indígena, ocupando papéis na formação, valorização de suas línguas e conhecimento ancestrais no processo de ensino-aprendizagem desde o ensino básico ao superior.
Em regiões especificas, a educação constitui ferramenta de empoderamento com projetos voltados especificamente para mulheres e meninas ribeirinhas com foco na autonomia, desenvolvimento humano regional e oportunidades.
A partir de um diagnóstico realizado pelo Instituto Amazônia 2030 (2023), o qual levantou informações acerca do mercado de trabalho entre homens e mulheres com abrangência de 58,9% do território brasileiro (Rondônia, Acre, Amazonas, Roraima, Pará, Amapá, Tocantins, Mato Grosso e Maranhão), ficou evidente que a desigualdade entre homens e mulheres na Amazônia Legal penaliza muito mais as mulheres em comparação aos indicadores nacionais.
No contexto amazônico 60% das mulheres que compõem a PEA têm ensino médio. Porém, a taxa de ocupação delas no mercado de trabalho é de apenas 42,4%. Em relação ao ensino superior, 26,1% das mulheres ocupadas tinham ensino superior completo enquanto os homens representam homens, 12,8%.
Portanto, mesmo sendo mais escolarizadas, a desigualdade por gênero é relevante, dificultando a inserção no mercado de trabalho e oportunidades para o crescimento profissional.

Meninas e Mulheres na Ciência
O ano de 2024 ficará marcado na história da ciência no Amazonas, sendo a primeira vez que o número de mulheres com título de doutorado superou o de homens de acordo com a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (Fapeam). Ao todo, foram 834 projetos coordenados por mulheres.
Ações específicas por meio do programa “Mulher Faz Ciência” e a extensão do prazo para análise de produtividade de pesquisadoras que também são mães foram imprescindíveis para elevar o número de mulheres cientistas na Amazônia.
Entre os editais específicos para mulheres cientistas, temos: Programa de Apoio ao Empreendedorismo Feminino; Programa Mulher Faz Ciência; Programa de Apoio à Interiorização; Programa Mulheres +STEM e o Movimento Mulheres e Meninas na Ciência (Fapeam, 2026).
Na Amazônia, mulheres cientistas atuam diretamente no monitoramento e conservação, utilizando tecnologias e conhecimentos locais para lutar contra os impactos ambientais. Portanto, capacitar mulheres da floresta é abrir caminhos para que seus conhecimentos e talentos se convertam em renda, escolhas e protagonismo em prol do futuro da região.

Tradição, inovação e tecnologias sociais: caminhos da excelência
A união entre tradição e inovação no contexto amazônico é o caminho mais promissor para a sustentabilidade regional, uma vez que possibilita transformar biodiversidade e riqueza cultural em oportunidades com sustentabilidade.
A bioeconomia atrelada aos conhecimentos tradicionais (sociobioeconomia) é um dos caminhos mais promissores para o futuro da região, pois implementa a geração de emprego e renda a partir de melhorias do início ao fim das cadeias produtivas de produtos da floresta.
A combinação de tecnologia social (fazer amazônico) e investimento em processos, embalagens, monitoramento, selos de origem, rastreabilidade e empreendedorismo regional fomenta a agregação de valor aos produtos, elevando a renda nas comunidades possibilitando ainda a abertura de novos mercados favorecidos pela marca Amazônia.
Ademais, temos observado a crescente instalação de parques de bioeconomia, biotecnologia, startups verdes (startups da floresta), eventos e encontros de inovação e tecnologia, bem como a presença dos hubs de inovação, que convergem com os conhecimentos já acumulados pelas instituições de ensino instaladas na região, de forma a atrair investimentos nacionais e estrangeiros.
Portanto, o caminho para a excelência é a sociobioeconomia, uma vez que possibilita a aliança entre ciência e os saberes tradicionais para transformar a região num centro estratégico de oportunidades e sustentabilidade.

Considerações finais
As atividades das mulheres amazônicas possibilita novas perspectivas e inovações imprescindíveis para resolver problemas estruturais e logísticos na região. Quando uma mulher assume o controle de sua trajetória pessoal e profissional, promove mudanças profundas na sua família, na sua comunidade, na saúde, na ciência e na educação regional, contribuindo de forma direta para um futuro mais sustentável para todos.
No contexto amazônico, a tradição continua essencial, pois representa a identidade, valores e carrega os saberes regionais, mas para ocorrer o processo de transformação é imprescindível o uso adequado da inovação e da tecnologia para a agregação de valor e redução das vulnerabilidades regionais.
Acerca da ciência, o fator amazônico traz as particularidades territoriais e regionais como a riqueza da biodiversidade, mas indicadores de vulnerabilidades socioeconômicos que desafiam os cientistas a atuarem de forma resiliente e com respeito garantindo avanços sustentáveis nas diversas áreas de atuação.
As mulheres amazônicas atuam na linha de frente contra o garimpo ilegal, grilagem de terra, contaminação da água, protegendo os modos de vida tradicionais contra ações que possam impactar sobre os povos e a floresta.
Ademais, a atuação feminina em cooperativas, associações e movimentos sociais tem colocado as mulheres em posição de liderança e de tomada de decisão no âmbito regional, uma vez que o trabalho coletivo garante dignidade para as comunidades, além de fortalecer o protagonismo feminino regional e a sustentabilidade ambiental.
Por fim, o contexto amazônico é extremamente desafiador para a ciência feminina. Pesquisadoras e cientistas que atuam na região protagonizam obstáculos que vão desde barreiras estruturais, geográficas e sexismo, que impactam no equilíbrio entre vida pessoal e pesquisas de campo em áreas remotas. Apesar dos obstáculos, o protagonismo feminino na ciência amazônica está em crescimento.

Referências
AGÊNCIA AMAZONAS. Mulheres são destaque nas áreas de Ciência e Tecnologia no Amazonas. 2024. Disponível em: https://www.agenciaamazonas.am.gov.br/noticias/mulheres-sao-destaque-nas-areas-de-ciencia-e-tecnologia-no-amazonas/#:~:text=Pela%20primeira%20vez%2C%20o%20número%20de%20mulheres,áreas%20de%20Ciência%20e%20Tecnologia%20do%20estado. Acesso em: 03 fev. 2026.
ECO. Amazônia não se sustenta sem o protagonismo feminino. 2025. Disponível em: https://oeco.org.br/colunas/amazonia-nao-se-sustenta-sem-o-protagonismo-feminino/#:~:text=Quem%20ainda%20não%20compreendeu%20a%20urgência%20de,dom%20de%20sustentar%20vidas%20e%20reinventar%20caminhos. Acesso em: 03 fev. 2026.
FAPEAM. Editais: Disponível em: https://www.fapeam.am.gov.br/editais. Acesso em: 02 de fev. 2026.
INSTITUTO 5 ELEMENTOS. A Mulher e os Saberes do Cuidar na Amazônia. 2020. Disponível em: https://5elementos.org.br/noticias/a-mulher-e-os-saberes-do-cuidar-na-amazonia/. Acesso em: 03 fev. 2026.
INSTITUTO AMAZÔNIA 2030. Na Amazônia, mulheres são mais escolarizadas que homens, mas sofrem com desemprego. 2022. Disponível em: Na Amazônia, mulheres são mais escolarizadas que homens – 04/04/2022 – Cotidiano – Folha. Acesso em: 31 jan. 2026.
PORTAL PUCRS. Tradição e inovação: os caminhos que levam à excelência. 2026. Disponível em: https://portal.pucrs.br/noticias/inovacao/tradicao-e-inovacao-os-caminhos-que-levam-a-excelencia/. Acesso em: 02 fev. 2026.
REPAM. Raízes da resistência: o papel das mulheres na defesa da Amazônia. 2025. Disponível em: https://repam.org.br/raizes-da-resistencia-o-papel-das-mulheres-na-defesa-da-amazonia/. Acesso em: 02 fev. 2026.

Dra. Michele Lins Aracaty
Economista, Pós-doutora em Desenvolvimento Regional, Pesquisadora da UFAM, Dama Comendadora da CBC, Diretora Administrativa da SOBER, Membro da ALACA, Economista do Ano 2024 e ex-presidente do CORECON – AM/RR.

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